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…, e obrigado pelos livros!

_____Caio de dar risada quando leio textos bem feitos dizendo que Literatura não serve para nada. O infeliz do autor sabe ler e escrever bem, consegue argumentar e refletir sobre a realidade e não percebe que faz isso porque leu muito na vida. Quem lê bastante (e direito) sabe muito bem que as idéias, os argumentos e as visões de mundo dos não-leitores costumam ser bastante pobres.
_____Meu avô sempre foi um grande exemplo para mim. Além de ter feito diversos trabalhos interessantes na vida, a leitura sempre figurou como uma de suas principais atividades de lazer. Provavelmente foi por causa dele e da minha mãe que hoje eu não apenas gosto de ler, mas, também, argumento de maneira consistente nos meus textos.
_____Como não sou mal-agradecido, agradeço-os pelo que sou hoje. Como não sou ingrato, agradeço, também, aos livros. Grande parte do que eu sou e do que sei não caiu do céu, caiu da estante.
_____Demonstro meu agradecimento quando tento fazer com que meus alunos gostem de ler; ao escrever sobre algum livro no blog; quando divulgo uma boa iniciativa literária. Por isso mesmo aproveito para divulgar, como já fiz outras vezes, a edição deste ano da Copa de Literatura Brasileira e o site dOs Viralata.
_____A Copa convida autores interessantes e bem diferentes para escreverem “partidas†entre livros brasileiros lançados no ano passado até que todos os derrotados sejam eliminados e só reste o campeão. É sempre uma leitura válida (dos textos aos comentários).
_____Os Viralata é um site que tem como objetivo divulgar o trabalho de escritores independentes. Lá é possível encontrar escritores já publicados por boas editoras que resolveram publicar um trabalho independente, bons escritores rejeitados pelas editoras, malucos que escolhem títulos de romances que dificilmente seriam publicados se não fosse de maneira independente e, claro, escritores ruins que resolveram publicar às próprias custas.
_____Aproveito para propagandear Os Viralata por dois motivos: (1) Albano Martins Ribeiro, vulgo Branco Leone, o dono do site, reformulou-o. Vale a pena ver como ficou. (2) Querendo divulgar melhor o site, Albano está fazendo a promoção “Divulgue e ganhe um livro.â€. Quem quiser colocar um banner dOs Viralata em seu site, blog, livraria, casa de tolerância ou açougue receberá um livro como forma de agradecimento.
_____O primeiro banner da promoção, vale dizer, já valeria a divulgação por si só. Olhem aí.


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P.S.: Para quem entendeu a referência no título, não se preocupe, nenhum “Até mais” é necessário no início da frase.

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Infância

_____Vantagem de ser criança: é possível se divertir facilmente em qualquer lugar.

_____Metrô paulistano, final de semana: um grupo de crianças que estava indo para um lugar qualquer com os pais resolveu aproveitar o espaço para bater figurinhas. Eles pareciam estar se divertindo até não poderem mais. Uma graça.

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_____Vai ter algum chato falando de infância roubada pela vida contemporânea?

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A Definição de Poesia

_____Queridos leitores, para quem não sabe, poesia é a figura que eu posto logo abaixo desta frase.

_____Não, meus queridos, não me tomem como um novo Marcel Duchamp, não é nada disso. Estou apenas reproduzindo o que aprendi em uma aula de Literatura.

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_____Gosto de ser professor; gosto de dar e de ver aulas. Acho uma graça alguém montar toda uma performance para explicar algo que a humanidade criou ou descobriu. Por isso mesmo, sempre que posso, paro e assisto aulas dos meus colegas de trabalho. Outro dia, entretanto, cheguei a me arrepender desse costume.
_____Parei na porta de uma aula de Literatura literatura que um professor qualquer estava dando. A aula havia acabado de começar.
_____Fazendo a maior cara de dono do saber, o professor depois de escrever o tema da aula na lousa – “Poesia†–, vira para a turma e pergunta:
_____– Vocês sabem o que é poesia?!?
_____Antes mesmo que alguém esboçasse qualquer tipo de resposta, o professor cara que estava dando aula, levantando a voz, respondeu.
_____– Eu sei que não sabem! Vocês ainda são novos demais para saber MESMO o que é uma poesia. Mas, agora, prestem atenção que eu vou dizer. Agora vocês vão saber o que é uma poesia.
_____Ele parou por uns dramáticos segundos e mandou a “definiçãoâ€:
_____– Poesia é inspiração. É INSPIRAÇÃO, porra! – Gritando e batendo na mesa ele repetia. – É isso que é poesia! É inspiração! Inspiração, sabem?!? Não é aquela merdinha que vocês fazem a qualquer hora. Não é aquele troço que vocês fizeram por obrigação porque a professorinha de Português mandou. Poesia é inspiração! Vem daqui!
_____E assim, apontando para o próprio peito e repetindo “Daqui! Inspiração, manja?!†ele concluiu a “explicação†e mandou os alunos pensarem nisso e produzirem um poema.

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_____Talvez ele esteja certo. Eu que devo ser um escritor medíocre. Cada texto que vou escrever, fico horas e horas, dias e dias para produzir. Leio e releio dúzias de vezes. Depois de publicado ainda acho que é possível melhorar alguns detalhes e, às vezes, até reescrevo uma parte. Isso porque, excetuando raríssimas exceções, só produzo prosa. Talvez se eu esperasse a inspiração, todo texto sairia com mais facilidade, melhor, mais poético.
_____Deve ser isso mesmo. Posso até imaginar em uma manhã de outono, num momento de inspiração, Luís Vaz de Camões sentando e escrevendo Os Lusiadas, em uma tacada só. Claro. O que mais pode explicar aqueles 10 cantos, aquelas 1102 estrofes, aqueles 8816 versos todos, todos decassílabos? Foi inspiração, só pode ter sido. Todo o poema dividido em estrofes de oito versos com rimas fixas ABABABCC é um claro sinal de inspiração. E é essa inspiração, que dá para sentir de longe, que define o épico camoniano como poesia. Só isso.

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_____Deixando as ironias de lado, será que aquele imbecil não sabe o que é trabalho duro? Não, com toda a certeza não sabe. Não sabe do trabalho duro dos poetas, nem do trabalho duro de se estudar um tema antes de dar aula sobre ele.
_____Poemas não podem ser definidos como inspiração. Isso nem chega perto de uma definição. Diga-se de passagem, a inspiração pode até ajudar na produção de um poema, mas, com certeza, ela não é o único ponto para a sua feitura. Pelo menos não dos bons poemas.
_____E, se algum “poeta†discorda de mim, pode dar uma olhada nesta oferta. É possível adquirir um ótimo poema, quase um clássico, por menos de 400 reais.

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P.S.: Dizem as más línguas que o autor-tema da última postagem, Edgar Allan Poe, inspirou muita cocaína antes de produzir seu mais famoso poema – “O Corvoâ€. Talvez o infeliz que deu aquela aula medíocre de literatura estivesse falando do Poe.
P.P.S.: Não posso deixar de indicar o texto “Coisas que fluemâ€, do Alex Castro. Nas palavras dele a um jovem escritor, “meu amigo, eu disse, com vontade de bater em seu ombro, o que flui é a sua urina quando mija. Arte é uma construção consciente.â€.

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Um passarinho preto me contou

_____Se você não está na idade, nem no país certo para bater de porta em porta dizendo “Doces ou travessuras?â€, não se preocupe, eu tenho a solução. Pelo menos a solução para quem, assim como eu, gosta de Literatura (e não tem dinheiro).*
_____A Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura irá realizar uma programação especial no Dia das Bruxas. Não exatamente no “diaâ€, já que a ideia é organizar eventos “macabros†durante a noite e a madrugada do dia 31 de outubro para o 1º de novembro.

_____Recitais de poesias malditas, filmes, peças e exposições com temática voltada para o terror, performances de dança e música gótica e, claro, contações de histórias que causam medo. Quase tudo isso com Edgar Allan Poe como ponto principal. Nada melhor do que usar um autor sombrio para festejar o Halloween.
_____Deem uma olhada no site para conferir a programação completa. Podem me procurar que, no meio da madrugada, eu estarei por lá. E digo mais, quem se interessar, é bom ir mesmo, porque o evento na Casa das Rosas, com Poe como tema principal, só vai acontecer este ano por causa da comemoração do bicentenário do escritor. Em outras palavras, vá agora ou nunca mais.

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P.S.: Deixo como extra mais uma ótima tirada do cartunista Liniers.

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* E está em Sampa.

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190 km/h é crime. 60 km/h também deveria ser.

_____Cruzei faz pouco com a campanha 190 km/h é crime.
_____Meu comentário não é exatamente sobre o mote da campanha. O vídeo e os adesivos lembram que dirigir a 190 km/h é crime. O fato é que, como já falei aqui antes, carro é uma arma. Dirigir a 190 km/h é crime; fabricar carros que possuam velocímetros que chegam a 190 km/h também deveria ser. Produzir carros que consigam atingir 190 km/h deveria ser crime, assim como comerciais que louvam a velocidade também deveria ser.


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_____Vocês sabem qual a diferença entre atropelar uma criança a 64 km/h e a 48?

_____Como diz a menina no vídeo, “Se você me atropela a 40mph (64km/h), há cerca de 80% de chance que eu morra. Se você me atropelar a 30 (48km/h), há cerca de 80% de chance que eu sobreviva.â€.

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_____Permitir que se ande a 60 km/h em uma cidade, por si só, já deveria ser considerado um crime. A vida humana é mais importante do que os minutos dos assassinos em potencial que utilizam automóveis.

_____Claro que eu não sou ingênuo a ponto de achar que existe alguma chance de uma política pública mudar esse disparate. São Paulo é uma cidade que tem o azar de contar com o monstro Alexandre de Moraes como Secretário Municipal dos Transportes. O ogro proferiu no dia 31 de março de 2009, na Associação Paulista do Ministério Público, a seguinte frase: “Há medidas para ampliar a segurança, mas não implantamos, pois prejudicam o trânsito.â€. Já seria algo horrível se o ajudante de homicidas não fosse, além de Secretário Municipal dos Transportes, também Presidente da São Paulo Transporte S/A (SPTrans) e Presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Mais um pouco e será necessário pedir a benção para o Herr Alexandre antes de se sair à rua.

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_____Motorista, deixando de lado o que Herr Secretário Municipal de Transportes de São Paulo diz, lembre-se: o pedestre nunca é culpado. Quem está portando a arma é você.
_____Para os céticos que pensaram em dizer que as propagandas apresentadas são montagens, fecho o texto com um ótimo vídeo produzido depois de uma simples andada de bicicleta do blogueiro Luddista pela Avenida Paulista.

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Concurso de Curtas: inscrições abertas

_____Eu moro em São Paulo. Eu e mais umas 11 milhões de pessoas. Por isso mesmo, por causa desse número absurdo de seres humanos em um só local, é possível encontrar por aqui tudo que é tipo de maluco.
_____Atrair público, em Sampa, não é um grande desafio. Se você começar a dançar com a sua namorada dentro do cinema, na hora do letreiro, fica gente na sala só para olhar; se pegar uma Bíblia e começar a gritar um monte de coisas sem sentido no meio de uma praça, aparece tanta gente em volta que dá até para tirar uma grana; até sentar e ler quieto no metrô faz aparecer algum interessado querendo descobrir que livro é aquele.
_____Do mesmo modo, quando se monta algum concurso, feira cultural, competição, mostra ou algo do tipo por aqui, dificilmente faltam inscritos. Experimente abrir inscrições para um campeonato de cuspe à distância em um parque, com uma mariola como prêmio para o vencedor, para ver como juntam pelo menos uns 20 inscritos.
_____Opções nunca faltam nem para quem quer participar, muito menos para quem quer aproveitar algum programa interessante. Em muitos outros locais do Brasil, infelizmente, a situação não é a mesma.

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_____Em Taubaté, nos dias 9 e 10 de novembro, vai acontecer o Festival Aprendizes de Cinema. Além da programação interessante, também vai acontecer o Concurso Cultural do Festival, com uma pequena competição de curtas. O prazo de inscrição para o Concurso foi estendido até o dia 29 por falta de inscritos até o momento.
_____O leitor Léo Mariano pediu para que eu desse uma ajuda na divulgação do Concurso aqui no Incautos. O objetivo dele não é ganhar um extra ou paquerar a organizadora. Nas palavras dele,

_____Sou só uma pessoa que cansou de ver iniciativas culturais bacanas da minha cidade morrerem por falta de participação das próprias pessoas da cidade, entre elas, eu.
_____Por isso, faço o que posso, nesse caso pedir, por meio de camaradagem, uma divulgação do evento para os blogues e sites que leio.

_____Ficam aqui, então, minha ajuda na divulgação e meus desejos de boa sorte para o Festival e para os eventos montados fora da capital paulista.

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Werther, House e uma lição que a humanidade já aprendeu

Atenção: Este texto contém spoilers do livro Os sofrimentos do jovem Werther e do seriado House. Quem não gosta de surpresas reveladas, pare por aqui.

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_____Em pleno século XVIII, Johann Wolfgang von Goethe publicou o livro que foi considerado o marco para o início do Romantismo – Os sofrimentos do jovem Werther. Lindo, gostoso e hiper melacueca, o romance é composto pelas cartas que Werther enviou para o seu amigo Wilhelm, relatando sua paixão por uma moça chamada Carlota. Como a bela moça se casa, no fim do romance o pobre Werther se mata.
_____No 20º episódio da quinta temporada de House, “Simples explicação”, Lawrence Kutner, um dos membros da equipe do mal-humorado médico, suicida-se. Mesmo tendo o caso de dois pacientes como fundo, o capítulo todo gira em torno do suicídio do Dr. Kutner. É um episódio chocante, inesperado e comovente. Qualquer fã da série termina bastante abalado.
_____O romance de Goethe causou, quando de sua publicação, uma onda de suicídios que imitavam o de Werther. Por conta disso, o livro chegou a ser proibido em algumas paragens da Europa e, na segunda edição, Goethe teve de acrescentar, no final, uma nota dizendo “Seja homem, resista.â€.
_____David Shore, o criador de House, obviamente, não quer nem chegar perto de causar tal tragédia. Mesmo assim, para garantir que o Efeito Werther seria evitado, ao final do episódio, o seguinte aviso foi exibido:

_____Uma oferta de ajuda para evitar que as pessoas se suicidem pareceu extremamente condizente com a situação. É ótimo ver que, de vez em quando, a humanidade aprende algumas lições.

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Thomas Jefferson: democrata e senhor de escravos

_____Afirmo sem hesitar que O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan, foi um dos mais fantásticos livros que já li. Lindamente, com uma argumentação sólida e bem exemplificada, Sagan defende a Ciência e, com ela, a Democracia. No último capítulo da obra, “Os verdadeiros patriotas fazem perguntasâ€, o astrônomo expressa sua admiração por Thomas Jefferson e a explica:

_____Jefferson foi um de meus primeiros heróis, não por causa de seus interesses científicos (embora eles tenham ajudado a moldar a sua filosofia política) mas porque, talvez mais do que qualquer outra pessoa, foi responsável pela propagação da democracia em todo o mundo. A idéia – emocionante, radical e revolucionária na época (em muitos lugares do mundo continua a ser) – é que as nações não devem ser governadas pelos reis, nem pelos padres, nem pelos chefões das grandes cidades, nem pelos ditadores, nem por um conluio militar, nem por uma conspiração de facto dos ricos, mas pelas pessoas comuns, trabalhando juntas.

_____Aqueles que não admiram Thomas Jefferson o atacam pelo fato de que ele foi dono de mais de uma centena de escravos. Escravizar outros seres humanos não parece condizente com alguém que dizia que os homens são iguais, que lutou pela independência de algum lugar e que assinou um documento que expressava ser alienável o direito à “vida, liberdade e à busca da felicidadeâ€. Ser dono de escravos não parece ser uma atitude democrática.
_____Por mais absurdo que pareça, entretanto, escravizar alguém pode ser democrático, sim. A ideia básica da democracia é que o povo (direta ou indiretamente) escolhe o que será feito. Se o povo, se a maioria do povo escolheu iniciar uma ditadura, queimar todos os ursinhos de pelúcia ou escravizar um grupo de pessoas, a decisão, em sua essência, foi democrática.
_____Provavelmente nem estava aí a justificativa de Jefferson para a sua horrível atitude. Mesmo assim, é bom lembrar: a liberdade é algo intrínseco à Democracia. A instituição democrática que Thomas Jefferson ajudou a instaurar retirou um tijolo a mais do muro da escravidão. Pena que ele mesmo não ajudou diretamente na derrubada da muralha.

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Proibido para glutões

_____No 18º episódio da terceira temporada dos Simpsons (“Vocações diferentesâ€), Lisa faz um teste de aptidão profissional na escola. Por conta de um defeito na máquina que processa os testes, a garota acaba tendo como resultado a previsão de que irá se tornar uma dona-de-casa.
_____Tentando alegrar e estimular a filha, Marge Simpson tenta mostrar como o trabalho de uma dona-de-casa pode ser criativo. Como exemplo, mostra que fez para o café um prato em que a comida forma um rosto sorridente. Lisa diz que de nada adianta, pois ninguém nem nota e, de fato, Bart e Homer ao chegarem à mesa, devoram o alimento sem prestar a menor atenção na figura.

_____Na semana passada recebi um e-mail de Gilson Val, leitor do blog, divulgando umas vinhetas que ele produziu para homenagear o Festival de Cinema do Rio de Janeiro. A brincadeira dos vídeos foi de reproduzir cenas de filmes utilizando pratos orientais. Minha preferida foi a feita sobre a animação WALL·E.

_____Achei divertido assistir ao videozinho e fico contente de ter conhecido a brincadeira dessa maneira e não ao vivo, no meu prato. Tenho certeza que eu correria o grave risco de agir como o Homer e o Bart.

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Advogados e a censura

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_____Faz mais ou menos um mês, publiquei um post meiguinho mostrando umas fotos que meus alunos tiraram de uma aula minha. Para explicar algumas das vantagens que os carros de combate proporcionavam aos arqueiros perante o uso de cavalos, coloquei um aluno (leve) nos meus ombros e comecei a pular enquanto ele tentava acertar um colega com pedaços de giz. Os alunos prestaram atenção, divertiram-se e, principalmente, entenderam o conteúdo.
_____Nos comentários da minha postagem, uma preocupada leitora disse “Apesar de desaprovar e achar perigoso vc tocar nos alunos, sua aula é show.â€. Longe de ser paranóica, ela, muito esperta, sabe quantos problemas isso pode gerar: a direção pode comer o meu rabo, pais podem reclamar da minha atitude (teoricamente) pouco acadêmica, posso ser demitido e – medo clássico dos dias atuais – dou material para ser processado.
_____Muitos colegas professores já demonstraram o mesmo tipo de preocupação para comigo. Já até ouvi alguns dizendo que queriam fazer algo parecido, mas que acham melhor evitar. Um processo, mesmo sem condenação, pode significar a perda do emprego. Sinceramente, acho triste. Parece que o receio de ser processado tornou-se maior do que o medo de que os alunos não aprendam a matéria.

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_____Há algumas décadas, professores não ensinavam certos conteúdos, não faziam algumas discussões por medo da repreendas do Regime Militar. Hoje, não o fazem por medo dos advogados – ainda com a anuência do Estado (na figura da Secretaria da Educação, das Delegacias de Ensino, etc.). Tenho dó dos professores e dos estudantes.

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_____Mesmo sendo algo medonho, se fosse apenas com a Educação o problema seria menor. O fato é que, hoje, os advogados são a nova censura. Agora, qualquer um que pode pagar, pode censurar. Duvidam? Perguntem ao Roberto Carlos. Não gostaram do exemplo? Vamos para histórias mais recentes.
_____Aqui em Sampa, o comentário da vez é o caso Boteco São Bento. Raphael Quatrocci foi ao local, não gostou e fez uma resenha desfavorável em seu blog Resenha em 6. Os donos do boteco, ao invés de pedirem desculpas, arrumarem um modo de melhorar o serviço para evitar críticas ou qualquer outra boa atitude do tipo, entraram com uma notificação extra-judicial ameaçando o blog de processo. Mesmo podendo utilizar exemplos do péssimo atendimento do local espalhados pela net, o blog preferiu tirar a postagem do ar.
_____Outro bom exemplo é um texto escrito pelo Milton Ribeiro, meu vizinho de portal. Nomeado “Uma questão pessoal ou Meus pecados com Euclides da Cunhaâ€, a postagem contava, entre outras coisas, sobre as peripécias do autor em uma escola católica, o Instituto Santa Luzia. Escritor talentoso e com faro para boas histórias, Milton terminou o texto dizendo: “Mas, meus amigos, que romance não daria a vida daquelas freiras, quanto ciúme, quantas querelas, quantos olhares… E quanto conforto, meu deus! Tenho que pensar nisso e dedicar à mana Gerceli, serva de deus!â€.
_____Uma graça de texto que merece uma leitura atenta. Entretanto, a citada Irmã Gerceli, demonstrando todo o amor que uma religiosa deve ter, chamou um advogado e o pobre Milton Ribeiro teve de retirar o texto do ar e publicar um calaaboca oficial (também conhecido como retratação). O texto, hoje, só pode ser lido em cache.

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_____Pode até ser que tanto o Raphael Quatrocci quanto o Milton Ribeiro ganhassem os processos. Mesmo assim, teriam de sujeitar-se a uma dor de cabeça chata, a uma perda de tempo que só serviria para enriquecer advogados. Além de, claro, iriam correr o risco de perder. Um bar com filiais e uma escola particular, por outro lado, são instituições com muito mais grana para investir em advogados, com muito mais pessoal para lidar com a burocracia e um idazinha ao tribunal não iria tirar o sono de ninguém.
_____No fim das contas, o Raphael e o Milton retiraram seus textos. A censura judicial venceu novamente. A Truculência Legal tem muito mais efeito no cidadão comum.

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_____Quem sai perdendo é a sociedade. Professores ficam com medo de ensinar; alunos perdem boas aulas. Escritores ficam com medo de escrever; leitores perdem bons textos. Quem sai ganhando? Idiotas que não estão interessados em Educação, imbecis que preferem que a as pessoas não pensem, prestadores de serviço que trabalham mal e, principalmente, os advogados.

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