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May 11, 2013
by Ulisses Adirt
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Eu tenho razão, Einstein concorda comigo!

___Há mais de um ano, um aluno religioso me mandou um texto com um pretenso diálogo entre um professor e Albert Einstein, seu aluno. De lá para cá, recebi várias versões da mesma mensagem. Acho que vale a pena deixar aqui uma resposta pública.

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___Eis o texto religioso.

Professor: Você é um cristão, não é filho?
Aluno: Sim, senhor.
Professor: Então, você acredita em Deus?
Aluno: Absolutamente, senhor.
Professor: Deus é bom?
Aluno: Claro.
Professor: Deus é todo poderoso?
Aluno: Sim.
Professor: Meu irmão morreu de câncer, embora ele orou a Deus para curá-lo. A maioria de nós iria tentar ajudar outras pessoas que estão doentes. Mas Deus não o fez. Como isso é um bom Deus, então? Hmm?
___(Estudante ficou em silêncio.)
Professor: Você não pode responder, não é? Vamos começar de novo, meu rapaz. Deus é bom?
Aluno: Sim.
Professor: E satanás é bom?
Aluno: Não.
Professor: De onde é que satanás vem?
Aluno: A partir de … DEUS …
Professor: Isso mesmo. Diga-me filho, existe o mal neste mundo?
Aluno: Sim.
Professor: O mal está em toda parte, não é? E Deus fez tudo. Correto?
Aluno: Sim.
Professor: Então quem criou o mal?
___(Estudante não respondeu.)
Professor: Existe doença? Imoralidade? Ódio? Feiúra? Todas estas coisas terríveis existem no mundo, não é?
Aluno: Sim, senhor.
Professor: Então, quem as criou?
___(Estudante não tinha resposta.)
Professor: A ciência diz que você tem 5 sentidos que você usa para identificar e observar o mundo ao seu redor. Diga-me, filho, você já viu DEUS?
Aluno: Não, senhor.
Professor: Diga-nos se você já ouviu o teu Deus?
Aluno: Não, senhor.
Professor: Você já sentiu o seu Deus, provou o seu DEUS, cheirou o teu Deus? Alguma vez você já teve qualquer percepção sensorial de DEUS?
Aluno: Não, senhor. Me desculpe mas eu não tive.
Professor: Mas você ainda acredita nele?
Aluno: Sim.
Professor: De acordo com empírica, Protocolo, Testável demonstrável, da Ciência diz que o vosso Deus não existe. O que você acha disso, filho?
Aluno: Nada. Eu só tenho a minha fé.
Professor: Sim, fé. E com o que a Ciência tem problema.
Aluno: Professor, existe tal coisa como o calor?
Professor: Sim.
Aluno: E existe tal coisa como o frio?
Professor: Sim.
Aluno: Não, senhor. Não há.
___(O auditório ficou muito quieto com essa sucessão de eventos.)
Aluno: Senhor, você pode ter muito calor, e ainda mais calor, superaquecimento, mega calor, calor branco, pouco calor ou nenhum calor. Mas não temos nada que se chame frio. Podemos atingir – 236º graus abaixo de zero que não é calor, mas não podemos ir mais longe que isso. O frio não existe. Frio é apenas uma palavra que usamos para descrever a ausência de calor. Não podemos medir o frio. O calor é energia. Frio não é o oposto de calor, senhor, apenas a ausência dele.
___(Havia silêncio no auditório.)
Estudante: E sobre a escuridão, Professor? Existe tal coisa como a escuridão?
Professor: Sim. O que é a noite, se não existe a escuridão?
Estudante: Você está errado novamente, senhor. A escuridão é a ausência de algo. Você pode ter pouca luz, a luz normal, luz brilhante, luz piscante. Mas se você não tem luz constantemente, você não tem nada e você a chama de escuridão, não é? Na realidade não é. Se isso fosse correto, você seria capaz de fazer mais escura a escuridão, não seria?
Professor: Então, a qual ponto você quer chagar, rapaz?
Aluno: Senhor, o meu ponto é que a sua premissa filosófica é falha.
Professor: Falha? Você pode explicar como?
Aluno: Senhor, você está trabalhando na premissa da dualidade. Você argumenta que há vida e há morte, um Deus bom e um Deus mau. Você está vendo o conceito de Deus como algo finito, algo que podemos medir. Senhor, a ciência não pode explicar um pensamento. Ele usa eletricidade e magnetismo, mas nunca viu, muito menos completamente compreendeu qualquer um. Para ver a morte como o oposto da vida é ser ignorante do fato de que a morte não pode existir como algo substantivo.
___A morte não é o oposto da vida: apenas a ausência dela. Agora me diga, Professor, você ensina a seus alunos que eles evoluíram de um macaco?
Professor: Se você está se referindo ao processo evolutivo natural, sim, claro, eu faço.
Estudante: Você já observou a evolução com seus próprios olhos, senhor?
___(O professor balançou a cabeça com um sorriso, começando a perceber aonde argumento estava indo.)
Estudante: Como ninguém jamais observou o processo de evolução em trabalho e não pode sequer provar que este processo é um empreendimento em curso. Você não está ensinando a sua opinião, senhor? Você não um cientista, mas um pregador?
___(A classe estava em alvoroço.)
Aluno: Existe alguém na classe que já viu o cérebro do professor?
___(A classe explodiu em gargalhadas.)
Aluno: Existe alguém aqui que já ouviu o cérebro do professor, sentiu, tocou ou cheirou? Ninguém parece ter feito isso. Assim, de acordo com as regras estabelecidas de protocolos empiricos, estável, comprovada, a Ciência diz que você não tem cérebro, senhor. Com todo o respeito, senhor, como então confiar em suas palestras, senhor?
___(A sala ficou em silêncio. O Professor olhou para o aluno, com o rosto insondável.)
Professor: Eu acho que você vai ter que toma-las pela, fé filho.
Aluno: É isso senhor … Exatamente! O elo entre o homem e Deus é fé. Isso é tudo o que mantém as coisas vivas e em movimento.
___Acredito que vocês tenham gostado da conversa. E se assim for, você provavelmente vai querer seus amigos / colegas para aproveitar o mesmo, não vai?
___Transmita isto para aumentar seu conhecimento … ou fé.
___A propósito, o aluno era EINSTEIN.
#SemPalavras

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___Eis a minha resposta.
___Uma das coisas legais da Ciência, é que ela gosta de ser questionada. Por isso mesmo, pode ficar à vontade para me questionar e enviar o texto que você quiser, mas tome cuidado. Na última vez que me mandaram um textinho religioso assim, respondi escrevendo este texto aqui.
___Também aconselho cautela, porque o texto que você mandou, além de mal escrito, apresenta tantas falhas, mas tantas falhas, que conta mais contra o seu deus do que a favor dele. Tá na cara que foi escrito por um crente que não entende lhufas de Ciências. Para começar, qualquer professor com um mínimo de competência responderia, sem qualquer dificuldade, quase todos os questionamentos do aluno-cristão, mesmo que estivesse com as mãos amarradas em um tronco de pira inquisitorial.
___Rapidamente, sem me deter muito para escrever um texto literário (como o que eu linkei acima), vou só apontar algumas falhas:
- Sobre frio e calor e sobre morte e vida, o professor poderia ter respondido explicando como conceitos são criados.
- Sobre escuridão, o professor poderia falar de maneira bem interessante sobre buraco negro, sobre as propriedades dos olhos se adaptarem…
- Se o professor explica que “o homem evoluiu de um macaco”, o professor explica errado e realmente não sabe nada sobre Evolucionismo. Ele deveria estudar mais. Para que você, não repita uma bobagem dessas, acho que vale a pena dar uma lida neste texto aqui.
- Quando questionado sobre observar a evolução, qualquer estudante de Ensino Fundamental teria respondido que valia a pena o aluno-cristão descobrir o que é Paleontologia.
- Sobre o cérebro do professor… já que ele não conseguiu responder essas perguntas bobas do aluno-cristão, acho que eu já o vi, sim. Tá aqui uma imagem dele:

Cérebro

___Agora, falando sério, é tão fácil provar a existência do cérebro de alguém com a tecnologia que usamos hoje na Medicina que eu tenho sérias dúvidas sobre o quão ignorante é o autor do texto.
___Deixando as bobagens do texto de lado, você pode me dizer “Tá bom, o autor do texto é um ignorante mentiroso, mas o ponto principal do texto é válido: ‘Você sabe que existem certas coisas, você acredita em certas coisas mesmo sem provas.’.”. Minha resposta será um sonoro “Não!”. Para um cientista, se não existir uma forma de provar, se não for possível observar, repetir o experimento, etc., etc., não é um conhecimento válido cientificamente e ponto. E, mais do que tudo, mesmo os “conhecimentos válidos cientificamente” podem ser questionados e novas pesquisas podem provar que as anteriores estavam erradas. Os cientistas adoram isso, pois poderão descobrir coisas novas a partir daí.
___Por fim, a parte mais engraçada dessa história toda está no início e no fim do texto.
___No começo, o professor começa questionando o aluno, “Você é um cristão, não é filho?”, e o estudante responde: “Sim, senhor.”. No fim do texto, o coitado do autor, achando o próprio texto ficcional excessivamente genial, diz “A propósito, o aluno era EINSTEIN.”. Pobre crente ignorante… Se tivesse pesquisado um pouquinho, ele descobriria que a relação de Einstein com as religiões era um pouco atípica. Mais do que isso, se o físico fosse se rotular com alguma religião, Einstein se diria judeu, não cristão.
___Além de engraçado, esse ponto também é triste. Triste porque o maluco autor do texto sabia que estava defendendo a “Verdade” dele com uma mentira. Sério mesmo, quão válido pode ser isso? E falo isso com o aval de Stephen Hawking, Bárbara Gordon e Isaac Newton, que estão aqui no quarto, comigo, enquanto eu escrevo este texto.

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P.S.: Pessoas que compartilham esse tipo de texto deveriam muito ler O mundo assombrado pelos demônios, do Carl Sagan. Fica a indicação.
P.P.S.: O Daniel Vieira Lopes, do canal D-Dimensões, também deve ter passado por uma situação como a minha e acabou fazendo um ótimo vídeo sobre esse tema.

May 9, 2013
by Ulisses Adirt
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Não produza uma capa pela sinopse

___Eu bem imagino que deve demandar muito esforço para se fazer um trabalho bem feito de escolha da capa de um livro. Imagino que deve ocupar muito tempo e que, muitas vezes, o reconhecimento não deve ser dos maiores. Quase consigo ver a pobre infeliz que escolhe as capas lendo um livro chato, que, se não fosse pelo trabalho, ela largaria antes da vigésima página; após terminar a obra, horas e horas pesquisando, pensando e escolhendo para tentar representar bem a obra toda (sem revelar o mais importante) apenas com uma capa . Por fim, ninguém, nem o chefe, nem o público e nem a autora, ninguém sequer comentam a capa. Deve ser mesmo um trabalho inglório.
___Sem dúvida, existem muitas maneiras de fugir do trabalho duro. Capas quase sem nada além do título e do nome do autor já resolvem o problema. Uma ilustração abstrata, então, é praticamente impossível de errar. E, claro, dá para ler bem por cima uma sinopse do livro e escolher uma figura genérica qualquer. Imagino que foi essa última opção que levou à capa de Maigret se diverte, publicado pela L&PM.

Maigret se diverte

___Quem já leu os mistérios que Simenon escreveu, vai estranhar um pouco esse Maigret se diverte. Ao contrário do habitual, nessa obra o comissário Jules Maigret não está à frente de uma investigação, tentando resolver algum crime; Maigret está de férias e a estória se passa com o comissário acompanhando a resolução de um crime pelos jornais.
___Pobre Ivan Pinheiro Machado, devia estar com pressa, cheio de livros para resolver. Simplesmente passou o olho rapidamente pelo início de um resumo do livro, soube que tratava de uma historinha em que Maigret estava de férias, viu o ano em que a obra foi publicada, pegou uma fotografia de praia tirada mais ou menos na mesma época por algum fotógrafo famoso, colocou um filtro e mandou publicar. O problema é que a história toda se desenrola com Maigret saindo de férias e resolvendo não ir à praia ou a qualquer outro lugar, o comissário e a esposa resolvem ficar descansando em casa, em Paris.

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___Eu sei que alguém esperto facilmente deve conseguir justificar a capa, sei que podem falar que eu estou sendo chato, mas a verdade é que o trabalho de escolher capas de livro, mesmo sendo trabalhoso, deve também ser bem legal (ainda mais para as obras do Simenon). Se for para fazer malfeito, melhor arrumar alguém que leia a obra e faça bem feito. Ou escolher uma capa abstrata.
___De qualquer modo, esta postagem serve como adendo ao ditado de que não se deve julgar um livro pela capa.

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P.S.: Nem precisam me lembrar de que não é muito inteligente escrever um texto escancarando um erro do Ivan Pinheiro Machado. Para quem não sabe, Pinheiro Machado é o PM da editora L&PM* e, portanto, esta postagem intrometida pode me fechar muitas portas por lá. Mesmo assim, achei que valia o toque (ainda mais porque, verdade seja dita, mesmo com esse pequeno escorregão, é bom ressaltar que a L&PM é, de longe, a melhor editora de livros de bolso do país).

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* O L é de Paulo de Almeida Lima.

April 23, 2013
by Ulisses Adirt
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Ponto de vista

___Aproveitando uma janela entre as aulas, sentei em um dos computadores da sala dos professores e comecei a redigir algumas questões de prova. Em meio à seleção de textos, dei risada. Outro professor, também em janela, perguntou:
___– O que você está fazendo?
___Concentrado na minha tarefa, respondi simplesmente “Trabalhando.”.
___– Trabalhando e rindo?, retrucou ele. – Assim nem parece trabalho.
___O pior é que, no fim das contas, temos o mesmo trabalho.

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As segundas-feiras não são ruins
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* Caro Coala, não leve esta postagem para o lado pessoal. ;-)

April 20, 2013
by Ulisses Adirt
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Manifesto – ETESP

___Eu sei que a postagem de hoje foge um tanto do padrão de textos que eu escrevo aqui no blog. Trata-se da divulgação de um manifesto escrito pelos professores de uma das escolas em que eu trabalho contra o sindicato pelego e a vergonhosa política do governo estadual para com os funcionários do Centro Paula Souza.
___Se os leitores habituais não estiverem interessados, este aviso fica aqui no início para que esta postagem seja ignorada. Para quem quiser se informar um pouco mais sobre como o PSDB, apesar dos discursos de campanha, não cuida das ETECs e FATECs, fica o manifesto e, abaixo, alguns links de textos que eu publiquei sobre o assunto aqui no blog.

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Nós, professores e demais funcionários do Centro Paula Souza, da unidade Etec de São Paulo (ETESP),

Vimos por meio desta apresentar nossa profunda discordância em relação aos critérios estabelecidos pelo Centro Paula Souza no que se refere à política do “bônus-resultado” vigente. Não obstante, entendemos que, além de insuficiente, deve-se reformular o plano de carreira dos funcionários capaz de integrar maiores benefícios e estabilidade na carreira. Compreendemos que a prestação de serviço educacional não pode ser tratada como mera mercadoria, abordagem típica do universo empresarial.

Nos posicionamos a favor de uma convergência dos docentes e demais funcionários de todas as unidades do Centro Paula Souza a se mobilizarem em torno da discussão das condições de trabalho, plano de carreira e atual política do “bônus-produtividade” meritocrática.

As reformas de Estado, de cunho neoliberal, têm orientado a realidade educacional brasileira. O processo de precarização social do trabalho docente e das formas flexíveis de contratação (professores horistas, trabalho por tempo parcial) são dominantes no Centro Paula Souza. A desatenção com os direitos sociais dos professores agravada pela desmoralização social da carreira desvela o grau de precarização em que se encontram os professores e funcionários.

Na oportunidade em que repudiamos a política salarial no Centro Paula Souza, temos ciência da necessidade de se combater a burocracia sindical do SINTEPS e reivindicar o controle da base sobre os dirigentes. O confronto de opiniões, visões de mundo, críticas, reivindicações, controle, transparência devem formar a tônica da organização sindical, em especial no ramo educacional público, o que definitivamente não é o caso do SINTEPS.

Por fim, nos posicionamos:

1- Contra o bônus-produtividade, não apenas seus critérios da gestão empresarial;

2- Por um plano de carreira claro e que permita ao docente sentir melhorias efetivas em seus ganhos salariais;

3- Aumento real de salários;

4- Livre escolha, por parte dos funcionários do Ceetps, dos contratos de trabalho (CLT ou estatutário);

5- Mudança na jornada de trabalho;

6- Luta pela reeducação da organização e politização docente e desburocratização sindical;

7- Por um sindicato atuante, presente e que represente efetivamente os funcionários do Ceetps;

8- Em repúdio a Superintendência do Centro Paula Souza e à política educacional do governo do Estado de São Paulo;

Movimento de Oposição Sindical à direção do Sinteps e de organização dos professores pela reivindicação de melhores condições de trabalho junto a Superintendência do Ceetps.

São Paulo 19 de abril de 2013.

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Leituras recomendadas:
- “Serra e a educação”;
- “ETESP: mentiras e verdades na melhor escola pública de São Paulo”;
- “Novilíngua – e a ausência de Sociologia e Filosofia”;
- “‘Boas’ condições de trabalho”.

April 17, 2013
by Ulisses Adirt
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Insistência

___Em uma das passagens bacanas do filme Um sonho de liberdade, de Frank Darabont, Andy, a personagem principal, escreve insistentemente para o Legislativo solicitando mais verba para a biblioteca do presídio. No conto em que o filme foi baseado, “Rita Hayworth e a redenção de Shawshank”, de Stephen King, o trecho que conta esse episódio é assim:

___– Vá em frente e escreva suas cartas. Eu até coloco no correio para você, se pagar o selo. [–, disse, em 1954, o diretor Stammas.]
___(…) Os pedidos de Andy de verbas para a biblioteca foram sistematicamente recusados até 1960, quando recebeu um cheque de duzentos dólares – o Senado provavelmente o enviou na esperança de que ficasse quieto e desaparecesse. Esperança vã. Andy sentiu que tinha dado o primeiro passo, e redobrou seus esforços; duas cartas por semana em vez de uma. Em 1962 conseguiu quatrocentos dólares, e pelo resto da década a biblioteca recebeu setecentos dólares anuais regularmente. Por volta de 1971, tinha aumentado para mil dólares.*

___Pode ser algo chato, mas insistir insistentemente muitas vezes pode trazer resultados.

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___Moro com minha esposa no Bixiga, em um apartamento construído na década de 70. A idade do apartamento tem vantagens e desvantagens. Entre as vantagens está o tamanho do imóvel. Entre as desvantagens, o fato de que algumas partes do apartamento já passaram da hora de serem trocadas. As janelas certamente entravam nessa categoria. Quando chovia muito forte, vazava tanto que era possível até treinar natação sem sair de casa.
___Juntamos dinheiro, pesquisamos e contratamos uma empresa chamada Qualifac para instalar as novas janelas. O serviço não ficou perfeito, mas duas ou três ligações e um pouco de paciência fez com que a empresa deixasse tudo como queríamos.

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___Como contei, no dia 26 de dezembro, aqui no blog, eu ganhei de natal um par de tênis de dança. Ofensivamente, o par era formado por dois pés esquerdos.

Tênis novos - sola

___O tênis foi comprado na loja virtual Marnet Danças, a “Distribuidora Oficial da Capezio”. Por isso mesmo, comecei entrando em contato com a empresa. Simpaticamente, ela me sugeriu que eu, com os meus recur$o$, lhes enviasse o tênis para “averiguação”. Como eu não gostei muito da sugestão, decidi entrar em contato direto com a Capezio.
___Isso fez com que as pessoas doces e atenciosas dessas lindas empresas ficassem dizendo que eu era muito especial, que eles estavam pensando muito em mim, mas que “Ainda não temos o seu número.”, “Tente pedir na filial do Acre.”, “Desculpe-me. Você trouxe o formulário azul claro. O correto para solicitar uma troca é o formulário azul calcinha, em três vias.”.

Uma das notas fiscais da Capezio prometendo que, um dia, entregaria o meu tênis

___Mesmo assim, eu continuei pentelhando insistindo e, finalmente, no dia 15 de abril eu recebi o meu tênis. Depois de quase quatro meses eu recebi no conforto do meu lar, com o frete bancado pelas empresas que erraram ao mandar dois pés esquerdos? Não…! Eu recebi em mãos, quando fui pessoalmente a uma das lojas, depois de ligar pela 69ª vez perguntando se o meu tênis havia chegado.

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___Qual a lição que se tira disso?
___Continue insistindo? Talvez. Realmente pode dar certo. Só que eu acho que é possível para acrescentar um ponto aí: também vale a pena escrever um texto difamando a empresa que atendeu mal o cliente. Dá até para terminar indicando a concorrente.
___Portanto, caros leitores, se quiserem comprar algum produto relacionado a dança, indico a Só Dança.

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P.S.: Sobre consumidores reagindo contra empresas desonestas, incompetentes e afins, nada melhor do que indicar o Otário A. Anonymous. Se não conhecem, vale a visita.
P.P.S.: O meu exemplo preferido fora do Brasil é o do músico Dave Carroll. Fica um link para quem quiser saber um pouco mais do caso e ouvir sua mais famosa composição – “United Breaks Guitars”.

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* Pessoalmente, achei que o filme narrou esse episódio de maneira melhor que o livro. Mesmo assim, para fins de indicação, achei que valia a pena citar as duas versões.

April 11, 2013
by Ulisses Adirt
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O segredo do sucesso

___Comecei a namorar a minha esposa em 2005. Na época ela morava quase em frente ao Hospital Igesp. Hoje, apenas minha sogra mora lá.
___Por conta proximidade, pude acompanhar, da rua, as mudanças no hospital. E, desde 2005, a Igesp cresceu bastante. O hospital se tornou dono de uma parte maior do quarteirão em que foi fundado, praticamente dobrou de tamanho. Comprou, também, várias casas em quarteirões próximos.
___Eu sei que saúde, como negócio, pode ser bem lucrativo, mas era só esse o segredo do crescimento da Igesp?

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___Meu abril de 2013 começou com uma manhã tranquila indo ao trabalho. Chegando lá, do nada, comecei a sentir fortes dores. Com o passar dos minutos, o meu quadro apenas piorou. Por conta disso, uma professora muito atenciosa acabou me levando ao Hospital Santa Isabel, da Santa Casa.

Santa Casa, por Quino

___Cheguei lá completamente transtornado, sem nem conseguir falar direito. Mesmo assim, fui diagnosticado rapidamente, recebi um analgésico na veia e comecei a me sentir melhor. Todo o tempo, enfermeiras vinham ver como eu estava. Para confirmar o diagnóstico, procurar mais algo de errado e ver o que era necessário fazer, fizeram exame de sangue, urina, ultrassom. Depois no ultrassom, não ouvi um “É uma menina!”, mas, sim, “Você está com uma pedra no rim.”.

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No meio do rim tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do rim
tinha uma pedra
no meio do rim tinha uma pedra.
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Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minha lombar tão fatigada.
Nunca me esquecerei que no meio do rim
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do rim
no meio do rim tinha uma pedra

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___Em casa, tentando repousar, tive outra crise de cálculo renal. Acreditando já saber do que se tratava, tomei remédio e tentei ficar no meu canto até melhorar. Algumas horas – e o banheiro vomitado – depois, tive de ir para o hospital. Dessa vez, acompanhado da minha sogra, acabei indo parar na Igesp.
___Cheguei ao hospital bastante mal e me amaldiçoei por não ter em mãos os exames que já tinha para mostrar aos médicos. Como demoraram bastante para me atender, eu piorei e, quando cheguei ao médico, não consegui falar para lhe passar as informações que eu tinha.
___Recebi um forte analgésico na veia e fui deixado em um canto. Com exceção do momento em que o médico me atendeu e do instante em que o enfermeiro colocou o remédio no meu braço, ninguém mais se dirigiu a mim para nada, nem para ver se eu havia reagido bem ao analgésico.

ERRARE HUMANUM EST, por Quino

___O soro acabou, sangue começou a voltar pelo tubo e eu, meio grogue, fiquei esperando. Depois de mais de uma hora sem ninguém olhar para mim, tentei chamar algum enfermeiro. Não foi fácil, acho que o número de enfermeiros não é o bastante para dar atenção aos pacientes.
___Fui encaminhado novamente para o médico que disse que não dava para saber com certeza o que eu tinha, que provavelmente era pedra no rim. “Vá para casa e tome tal remédio. Se você voltar a sentir uma dor muito forte, volte aqui.”. Assim mesmo, sem nenhum exame feito, sem nenhuma atenção dispensada.

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Médico que resolve, por Quino

___A conta, para mim, foi exatamente a mesma em ambos os hospitais. O gasto com o paciente, entretanto, foi bem diverso. Acho que eu descobri como o Hospital Igesp cresceu tanto desde 2005.

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Nota: As imagens que ilustram esta postagem são do maravilhoso Quino, o cartunista argentino autor da Mafalda, e fazem parte do livro Quinoterapia. Aproveito esta nota para agradecer a querida Marili, que me mostrou que o Quino não fazia tiras apenas da Mafalda.

April 1, 2013
by Ulisses Adirt
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Como se referir à Quartelada de 1964

___Um ex-aluno muito querido me escreveu perguntando se, em um artigo acadêmico, ele deveria escrever “Golpe Militar” ou “Revolução de 1964”. Como achei a resposta interessante (e também porque hoje é 1º de abril, aniversário daquela quartelada ridícula e assassina), pensei que seria bacana publicá-la aqui.

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___Tanto Revolução de 1964, quanto Golpe Militar podem ser utilizados e considerados corretos por quem for ler o seu artigo. Só que a escolha, a expressão que você utilizar com mais frequência no texto, vai deixar clara a visão que você tem sobre o assunto, sua escolha de lado.
___Se você chamar de Golpe Militar de 1964, você estará dizendo que os militares tomaram o poder de maneira ilegal, não-democrática, não-constitucional. Vai deixar claro que a tomada de poder que os milicos fizeram foi a derrubada ilegal de um governo constitucionalmente legítimo.
___Se chamar de Revolução de 1964, você estará dizendo que os militares fizeram uma reforma, uma transformação em nossa sociedade. Provavelmente vai até remeter ao “fato” de que eles salvaram o Brasil do “Mal Comunista”. Existem até outras formas mais pesadas de mostrar simpatia a eles: é possível chamar o Golpe de 1964 de “Revolução Gloriosa” e toda a Ditadura de “A Redentora”. É meio ridículo, mas existe gosto para tudo.
___Voltando para o lado da crítica, é possível humilhar mais ainda os militares utilizando as expressões Quartelada ou Golpe do 1º de Abril de 1964. O primeiro é um termo pejorativo para rebeliões vazias feitas por militares. O segundo é uma maneira de lembrar que os militares foram estúpidos o bastante para perpetrar um golpe de Estado exatamente no Dia da Mentira.*
___Por fim, também é possível chamar de Golpe Civil-Militar, enfatizando que os militares só deram o golpe porque tinham amplo apoio civil. Golpe Civil-Militar, vale dizer, é o termo mais usado pela nova historiografia e também passa a mensagem de que a culpa de todo aquela desgraça não foi de apenas dos militares.

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Quartelada de 1964, por Laerte
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___Talvez você pergunte: “Professor, existe algum termo completamente isento para utilizar no meu artigo?”. Se você perguntar isso, serei obrigado a dar um sorriso irônico e responder:
___– Se você quer ser completamente isento, fique à vontade para utilizar qualquer uma dessas expressões. Só não se esqueça de mudar o seu nome para “Ingênuo”.

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* Mais tarde, percebido o ridículo da situação, os milicos fizeram questão de mentir enfatizar que o Golpe havia sido dado “na noite do dia 31 de março”.

March 22, 2013
by Ulisses Adirt
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Papa Francisco e a Ditadura

___Desde que Jorge Mario Bergoglio foi escolhido como o novo papa, uma polêmica interessante tem rolado: teria Bergoglio apoiado a ditadura argentina (1976-83), inclusive denunciando outros religiosos que acabaram presos? Como o assunto é extremamente delicado, os dois lados têm sido extremamente passionais e, algumas vezes, irracionais. Como exercício histórico-reflexivo, vou pegar alguns dos comentários e argumentos mais utilizados e esmiuçá-los.

Bergoglio (papa Francisco) e a ditadura argentina, por Carlos Latuff
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___Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, afirmou que “nunca houve uma acusação concreta ou crível [de que o papa Francisco auxiliou a ditadura argentina]”. Lombardi vai ter de me desculpar, mas o padre jesuíta Orlando Virgilio Yorio afirmou até o fim de sua vida que Bergoglio é que havia entregado ele e seu companheiro, Francisco Jalics, aos militares. Por que a acusação de Yorio, preso e torturado pela ditadura, não é crível?
___É fácil contestar isso ao dizer que Francisco Jalics, o outro jesuíta preso pelos militares, falou que “É falso afirmar que nossa detenção foi provocada pelo padre Bergoglio.”. No entanto, avaliando essa afirmação com atenção, é possível perceber que essa não era sua declaração inicial. Jalics só eximiu o papa Francisco de culpa depois do dia 20 de março de 2013. No dia 15 e na época em que Jalics conduziu uma missa com Bergoglio, sua fala era simplesmente que eles estavam em paz, que estavam reconciliados. Pode-se acusar a Igreja Católica de muita coisa, mas não de ter pouca habilidade para mudar testemunhos.
___“Ah, mas o artista e escultor argentino Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz em 1980, negou que o papa tenha colaborado com a ditadura.” OK, é muito fofo que o ganhador do Nobel da Paz tenha defendido o papa, mas qual a autoridade dele em afirmar que o papa Francisco não colaborou com a ditadura? Quais as provas? Se Esquivel afirmar que eu posso voar, eu devo começar a bater minhas asinhas? A afirmação dele é tão válida quanto a da moça que trabalha na loja de doces, não resolve nada.
___Quanto às pessoas que Francisco teoricamente ajudou na época da ditadura, por favor, apresentem-nas. Onde elas estão? Se alguém tiver alguma para mostrar, por favor mostre, vou adorar saber o que lhes aconteceu. Mas, atenção, mostre com algum relato feito antes que Bergoglio virasse papa, algum relato dado logo depois que a ditadura acabou. Milagre relatado só depois que o santo subiu ao altar não cheira lá muito bem.
___Por fim, cito que até Pérez Esquivel admite que o papa Francisco não lutou abertamente contra a ditadura. Vale dizer, nem durante a ditadura, nem depois do seu fim. Para um religioso que teve destaque após a ditadura –, tanto à frente da conferência episcopal, como sendo reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel –, Bergoglio nunca fez críticas abertas ao regime e isso é bem fácil de constatar. Portanto, sem dúvida, as críticas sobre a omissão do papa nessa questão, são extremamente bem fundamentadas.

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___Como bem disse o grande Arnaldo Branco, o problema todo aconteceu por não terem escolhido um papa brasileiro, já que “somos bem mais tolerantes que a Argentina com colaboradores da ditadura”.

Papa brasileiro - twitada de Arnaldo Branco
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___Brincadeiras ácidas à parte, deixo a questão do papa e da ditadura para os debates nos comentários. Só um pequeno lembrete, queridos leitores: demonstrem que vocês aprenderam algo com o texto e, se quiserem questionar um ponto ou acrescentar algum elemento, o façam utilizando citações, links, documentos, reportagens e afins. Este blog não trabalha com dogmas.

March 10, 2013
by Ulisses Adirt
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Eu é que vou dançar com ela!

___Para um coreógrafo de dança de salão, não ter exatamente duplas costuma ser sinal de uma grande encrenca. Ainda bem que certas danças, como o lindy hop, primam pelas brincadeiras – e o humor resolve bem o assunto. (Com o extra de que a coreografia abaixo foi muito bem dançada.)

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P.S.: Para quem gosta da brincadeira de pares desiguais, ano passado eu postei uma coreografia de samba de gafieira com três cavalheiros e uma dama.