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Ignorância machuca

___Outro dia, no elogiadíssimo Index, vi um vídeo do Bill Maher que, como de costume, trouxe algumas reflexões interessantes. Imagino que vale uma rápida tradução de um pequeno trecho: a parte em que Maher responde a uma fala que pessoas como ele escutam bastante. “Por que você não pára de implicar com as religiões? Elas dão conforto às pessoas; elas não machucam ninguém.”. Pois bem.

___Além de muitas guerras, das Cruzadas, da Inquisição, do 11 de setembro, de casamentos arranjados com menores, explodir escolas de meninas, maltratar mulheres e homossexuais, fatwas, divisões de classes, estupro por honra, sacrifícios humanos, queimar bruxas, homens-bomba, apoio à escravidão e, sistematicamente, foder crianças?”. É, né? As religiões não machucam ninguém.

___O chato é que literalmente são só alguns exemplos. A ignorância faz mal. Afastar as pessoas de novos conhecimentos é um crime. Imaginem o que é impedir que as pessoas doem (ou recebam) sangue, fiquem com todos os seus ganhos materiais ou conheçam o próprio corpo. Pensem o que é ensinar que existem verdades inquestionáveis e que um moralismo tacanho deve guiar a vida das pessoas. Tentem conceber pessoas minimamente sensatas que lutam com todas as armas contra preservativos em um mundo em que pessoas morrem por doenças sexualmente transmissíveis.
___Eu não tenho dúvidas: religião já machucou e ainda machuca muita gente.

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P.S.: Aproveitando que o assunto é a luta contra a ignorância, a admirável turma do ScienceBlogs Brasil está se esforçando muito em uma campanha para que as pessoas se vacinem contra a Gripe A H1N1. Para mim, é uma atitude bem mais admirável do que pedir para que um deus (que, teoricamente, permitiu que a doença existisse) salve as pessoas.

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Glauco (1957-2010)

___Entre as últimas charges que o Glauco publicou, a minha preferida foi essa aqui:

___De todas as que eu me lembro, é impossível não citar a que lhe garantiu a terceira colocação no 5º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 1978.

___Por hoje, é só.

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Os portadores de necessidades especiais e os deficientes

___Qualquer ser humano com um mínimo de empatia sabe como vivem mal os portadores de necessidades especiais em nosso planeta. As atenções dadas a eles são por demais pífias e o que lhes é imprescindível raramente é plenamente suprido – seja pela educação alheia, seja por políticas públicas. Na teoria, isso poderia torná-los mais atentos aos problemas dos outros. Na teoria.
___Nossa sociedade carrocrata vive – de notícias a propagandas, de conversas de bar a salas de aula, de premiações a desejos – a afirmar o quanto o carro é maravilhoso e como a vida é melhor com ele. Não é à toa que muitos dos que dirigem costumam ser o retrato cuspido e escarrado do “Pateta, o rei do volante” (“Motor Mania”, 1950), sem que os motoristas percebam isso ou a sociedade os condene.

___O resultado é que é possível encontrar exemplos de que nem mesmo portadores de necessidades especiais conseguem fugir dessa mentalidade. Tudo aquilo que a desatenta sociedade os priva é esquecido quando eles estão protegidos por suas armaduras de metal.

___Existe uma guerra e a vida, se não está perdendo, sofre duras baixas. Parece que, para o mundo, os pedestres são deficientes.

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Sexo e Literatura

___Conversa com uma amiga pelo MSN.
Ela: oi ulisses. tah trabalhando?
Eu: Oi, querida. Acabei de chegar do trabalho.
Ela: AAAAA!  E eu não preciso mais trabalhar este mês!!! Peguei férias do trabalho!!!!!
Eu: Que bom q vc parece animada. Algum plano bacana para as férias?
Ela: eu jurei para mim que iria ler mto nessas ferias.
Eu: Ótimo. Parece um plano delicioso.
Ela: soh pra vc q eh culto. eu naum vejo tanta graça. nunca li um livro na vida
será que um dia eu vou ser q nem vc? kkkk
Eu: hahaha
É bem fácil… é só ir uma página após a outra. rs
Ela: e nunca mais acaba…. ho vida…
Eu: Exato. Se acabasse seria mto chato. É ótimo saber que sempre existem outras coisas legais para se ler.
Ela: mas da uma preguiça…….. por isso nunca li nenhum livro na vida. queria ser que nem vc
Eu: É só começar a ler. Pegue uns livros bons e vá lendo. Depois de um tempo não vai mais querer parar.
É q nem sexo… qto mais se faz, mais se tem vontade. rs
Ela: putz… que comparação heim…
Eu: rs… O pior é q a comparação funciona. Quem já experimentou, de verdade, bom sexo/boa literatura, sempre quer mais.
Eu: Mas, quem nunca leu (ou trepou) direito, pode até sentir vontade qdo vê alguém q lê, mas se acostuma logo com a situação e nem sente falta. Quem lê (ou trepa) com qualidade sempre, sempre quer mais.
Ela: pensando assim… vc me convenceu! vou para a biblioteca arrumar um namorado. kkkkkkkkk

___Tenho sérias dúvidas se minha amiga entendeu o que eu queria dizer. Pelo menos, que eu saiba, ela foi mesmo à biblioteca.

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A Playboy da Tessália

___Abro minha caixa de e-mail e encontro os seguintes brados:

TA VENDO SO SEU IDIOTA. VC FICA DEFENDENDO UMAS VACAS COMO A @TWITTESS E AGORA SE FODE [Creio que o remetente estivesse se referindo a este texto que eu publiquei em fevereiro.]. SE TOCA MEU. COMO VOCÊ PODE ACHAR CERTO UMA PIRANHA Q VAI E CHUPA UM CARA EM REDE NACIONAL? AGORA AO INVEZ DE TENTAR SE REDIMIR A PUTA VAI NA PLAYBOY E AINDA FAZ CAPA DE CHUPADORA
VE SE SE LIGA. TXAU. XXXXXXXXXXXXX

___Pois bem, a tal da capa é essa aqui:

___Agora, vamos a dois rápidos comentários meus:
1) Ainda não consigo entender como alguém pode achar ruim uma mulher que chupe um cara, seja em rede nacional, entre quatro paredes, em uma suruba ou na escada do prédio. Acho o outro lado problemático. Tenho sincero dó das pessoas que não encaram o sexo de forma natural.
2) Eu, que nem sei direito quem é a tal da Tessália Serighelli (só estou a defender que uma das atitudes dela não é condenável), vi a capa de outra maneira. Para alguém que foi tão criticada por ter feito um boquete, a capa da revista é de um humor excelente.
___Pensando bem, eu até que entendo o pessoal que critica a moça. Falta de sexo causa um puta mau humor.

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Admirável Capote Novo

___Escrever um pequeno texto, de umas vinte e tantas páginas, e receber, dos grandes autores do seu tempo, o panegírico de que toda uma geração de escritores veio daquelas linhas, não é pouca coisa. Publicado em 1842, “O Capote”, de Nikolai Gogol, merece, de longe, os elogios que costuma receber.
___Uma ironia fina, digressões bem pontuadas, uma narrativa clara (mesmo que cheia de omissões) e, principalmente, uma metalinguagem de deixar qualquer fã de Machado com água na boca, fazem do Capote uma leitura imperdível. Nas palavras de Amit Lahav, diretor artístico da Cia de Teatro Britânica Gecko, “A estória de Gogol é cômica e terrível – ao mesmo tempo uma mordaz sátira social, uma fábula moralista e um estudo psicológico.”.
___Enquanto Gogol conseguiu esse maravilhoso efeito utilizando palavras, o grupo Gecko montou um espetáculo baseado de maneira bem livre na obra, quase sem precisar de falas para se comunicar com a platéia. Para dizer a verdade, palavras não faltam; só que a Babel de oito ou nove idiomas que são utilizados durante a peça obviamente não servem de referência para que o público entenda algo.

___Os sons, os gestos, as coreografias, os cenários, os olhares ajudam a montar toda uma narrativa-“muda” que força a platéia a abstrair tudo o que pode para entender esse novo Capote. A história não é a que Gogol escreveu; o modo de contar também é excentricamente outro. A semelhança entre o conto e a peça talvez esteja na constante possibilidade de surpreender a audiência atenta.
___Para não abandonar essa profusão de estranhezas, meu conselho aos leitores é que conheçam os dois Capotes – começando pela peça.

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P.S.: Quem, sabiamente, quiser seguir o meu conselho, corra: a peça só fica em cartaz aqui em Sampa até o fim deste domingo, no Teatro do Sesi São Paulo (depois viaja para Brasília). Serão quatro apresentações. Para mais detalhes, confiram o site da FIESP.

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Mundo do Photoshop

___Faz um tempo, entrei no apartamento de um casal de amigos meus e me surpreendi com uma cópia, em tamanho grande, do Lunchtime atop a skyscraper, de Charles Ebbets.

___Parei por um tempo e fiquei apreciando a imagem. Minha amiga virou para mim e disse:
___– Legal, né? Até parece de verdade.

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___Por maior que tenha sido a Grande Depressão, ela não fez com que todos os empresários norte-americanos fossem à bancarrota. Alguns, como John Davison Rockefeller Jr., não só continuaram ricos como, também, aproveitaram o momento (e, para certos críticos, o grande desemprego e os salários baixos que passaram a ser oferecidos) para empreender obras que chamassem atenção. Nesse caso, a construção dos primeiros arranha-céus do Rockefeller Center.
___O fotógrafo Charles Clyde Ebbets frequentou o canteiro de obras do Rockefeller Center e, do alto das construções, fotografou os trabalhadores. Ebbets conseguiu imagens de efeitos vertiginosos: fotos de rara beleza e que ainda denunciavam a falta de segurança a que os operários estavam submetidos.

___Vejam só: Charles Ebbets teve um trabalho absurdo para tirar fotos do alto de uma construção, em plena década de 30, para, anos depois, chamarem as imagens de montagens. Chega a ser maldade.

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___Contei a história da foto para minha amiga. Com uma carinha de moça desconfiada, ela disse:
___– Já estou tão acostumada a ver as mais banais fotos de mulheres em revista e pensar que são de mentira, que eu nunca iria adivinhar que uma foto louca como essa aí é de verdade.

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Why so serious?

___Batman: A Piada Mortal, clássico do Alan Moore. Coringa falando com o Morcego:

___Creio que o Coringa teria muito talento como historiador.

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___Dava para montar um curso inteiro de História em cima da frase “Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha!”. Pena que nem todo acadêmico é bem humorado.

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Bons exemplos

___Por mais inteligentes que sejam os meus leitores, muito deles ainda não conseguem se livrar da horrível carrodependência que impera por aí. Em um país em que quase tudo que é mídia acaba espalhando o uso do carro como uma necessidade, é mesmo difícil pensar de outra forma. Por isso mesmo, alguns dos meus textos da categoria “Sem carro por escolha” já receberam comentários que me perguntavam se eu queria uma volta para o passado ou dizendo que não há outro jeito de se conviver com os carros.
___Pensando exatamente nesses leitores é que eu me sinto obrigado a indicar algumas séries do blog apocalipse motorizado. Luddista, seu autor, fez algumas viagens pelo mundo e relatou uma vida diferente, uma boa vida, em lugares em que as pessoas (não os carros), são a prioridade. Valem muito a pena os relatos sobre a Europa, Portland e Chile, sua mais recente viagem.

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___Só para selecionar alguns trechos imperdíveis, deem uma lida no texto “Portland não tem ciclovias”, no qual o Luddista conta sobre uma cidade que preferiu educar seus motoristas ao invés de segregar os ciclistas. Ou vejam como é “Um posto de gasolina em Santiago”. Ou, além do exemplo que segue abaixo, vocês podem ver algumas sequências de fotos impensadas para a realidade paulistana.

___Em Sampa, infelizmente, acontece o contrário. Ao invés de lembrar aos motoristas que eles devem zelar pelos pedestres, o poder público tenta expurgar da mente dos pedestres que eles têm a preferência e que a faixa é um local de sagrada proteção.

___Sei, é claro, que os pedestres não devem se jogar em cima dos carros. Só que, afirmo sem medo, muito mais importante é lembrar sempre para os motoristas que a preferência é das pessoas. Ou alguém quer mentir para mim e dizer que são comuns, em São Paulo, placas dizendo “Ao virar, respeite a preferência do pedestre” ou coisas do tipo?

___Lugares em que os seres humanos (não as máquinas) têm prioridade não são uma utopia. É possível viver muito bem assim e exemplos não faltam. Triste é saber que muitas pessoas não conseguem enxergar isso.

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Jesus Cristo, o Homossexual

___Para chamar a atenção do seu público, não costuma ser incomum que os historiadores contem curiosidades sobre diversas figuras históricas. Quem nunca ouviu falar das amantes de D. Pedro I, do bissexualismo de Alexandre, o Grande, ou das drogas que Edgar Allan Poe usou? São fatos normais (alguns inequívocos, outros contestados por outros historiadores), que tornam essas personagens históricas mais humanas.
___Mesmo fazendo mais de 10 anos que eu ensino História, nunca consegui ver algum aluno revoltado defendendo alguma personagem histórica. “É mentira! Como é que você pode dizer que o grande Júlio César era calvo?”. Entretanto, na última semana, cansei de ouvir pelos corredores o absurdo que foi Elton John afirmar que Jesus Cristo era gay. “Só uma bicha louca como ele para afirmar esse tipo de merda!”, “Tinham é que empalar esse puto.”, “Só porque o cara é veado, ele acha que todo mundo também quer ser.”.
___Quando um aluno pergunta, em aula, se Hitler foi homossexual (pergunta que já tive de responder centenas de vezes), vejo sempre a classe toda reagindo com puro interesse. Depois da declaração do Elton John e da reação idiota das pessoas, fico receoso de imaginar um aluno perguntando sobre as preferências sexuais de Jesus e acabar escachado por alguns colegas. Religião é algo tão triste.

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Adendo necessário: Alguém aqui lembra quando os muçulmanos fizeram um bruta escândalo por causa de umas charges que falavam de Maomé? Lembram os ocidentais cristãos falando que “Aqueles fundamentalistas islâmicos não sabem levar nada na esportiva.”? Pois é…

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P.S.: Vocês podem me explicar como uma pessoa pode se ver como “não-preconceituosa” e considerar uma ofensa dizer que alguém de gay?

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